sexta-feira, junho 18, 2010

Entrevista para o Site Voz da Rua (2008)

:: Arquivo Pessoal ::


Olá, tudo bem com vocês?
Estava eu outro dia pesquisando meu nome na net, pra saber quais conteúdos meus de matérias ainda estavam no ar depois de certo tempo, quando vi que uma entrevista que eu concedi ao site Voz da Rua (SP) em 2008 não estava mais e, detalhe: eu não tinha mais no meu acervo pessoal.
Então eu pedi o conteúdo para a Rafa, uma das repórteres do site, minha querida colega.

Essa entrevista foi bem legal e datada de março de 2008, foi um Especial Mês das Mulheres. Como de dois anos pra cá, minhas opiniões continuam firmes e o conteúdo também, resolvi postá-la por aqui, para quem não teve oportunidade de conferir e para que esse conteúdo continue na rede. Peço desculpas se soar cafona, ou até tendencioso um post autoreferente, mas é por uma boa causa. Percorremos temas diversos: Jornalismo e Meio Acadêmico, Surf, Influências, Guerrilha, Mulher e, claro, Hip Hop.
Obrigada ao pessoal do Voz da Rua, guardo com muito carinho essa matéria.
E espero que vocês que acompanham meu Blog gostem! PAZ.
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Voz da Rua Entrevista: Monique Barcellos (2008)

Fonte: Voz da Rua - Arquivo


VDR – Monique a primeira pergunta é inevitável, de onde vem a sua paixão pelo jornalismo?Alguma influência familiar?

MB – Com certeza, a gente é o que vê, o que lê e o que vive. Tudo é influência consciente ou inconsciente. Meu pai era jornalista, repórter durante o golpe militar de 68, depois radialista e redator então eu sempre fui curiosa com tudo, inclusive sobre as estórias de bastidor. Mesmo assim, não costumo dizer que minha paixão por jornalismo se deu pelo fato de ter um pai jornalista. O que mais influenciou foi o fato de eu ter crescido nesse meio. Sempre gostava de ir com ele aos gramados para a cobertura de uma partida de futebol, ou quando ele me levava ao escritório, ou ainda de ouvir as estórias, pra mais tarde aprender um pouco mais na prática como assistente de redação. Acho que da mesma maneira acontece com o gosto por poesia que acabei herdando da minha mãe, professora de Letras aposentada. Apesar de receber uma cultura familiar através de profissões, isso não quer dizer que inevitavelmente seguiria, mas de alguma forma segui - ironicamente ou não - as atividades de ambos. Então eu entro num dilema. Não sei se eu escolhi ou fui escolhida pelo jornalismo. Como dizem que “Amor não se escolhe, acontece”, sigo com poesia e jornalismo.

VDR - Foi uma escolha direcionar a sua carreira a divulgar a cultura de rua, ou foi algo que ocorreu naturalmente?

MB – Foi algo natural, mas também acredito que foi graças a um critério meu de enxergar uma relevância social do tema, além de gosto pessoal. Quando a gente começa a ter idéias para viabilizar as coisas do nosso jeito, é quase automático procurar universos e temas que nos agradem de primeira, já que não dá pra ficar boiando, é um verdadeiro mergulho. E a cultura urbana, assim como outras culturas, até a rural e a tribal, tem elementos que só conhecemos nos aprofundando no dia-a-dia, é um conhecimento que não dá pra ter só pela teoria. E como universitária, na época que comecei a vislumbrar o universo do hip-hop, pude me debruçar mais sobre os projetos, tanto na teoria como na prática, com certas doses de pesquisas teóricas, de antropologia, que a gente tende a mergulhar. Um lance sempre me rodeou: a percepção de mundo através de universos particulares, então eu penso na cultura de rua como mais um retalho na colcha social, que se a gente olhar de perto percebe os acabamentos.

VDR – Ao longo da sua carreira gostaria que comentasse sobre as que marcaram sua trajetória:

MB – Desde 2000 trabalho com jornalismo de maneira informal e desde 2007 como jornalista profissional. Com certeza o que mais marcou foi em 2005, época da série de surfe que eu montei. Fui colaboradora de sites como Click Surf, SaquaOnline e RicoSurf, onde participaram vários atletas premiados e alguns disputando mundiais. Uma matéria que marcou foi ao ar no site Waves do portal Terra, onde em Saquarema-RJ eu consegui uma exclusiva com o surfista carioca Pedro Henrique, que também mora em Saquá. Ele tinha acabado de voltar da primeira viagem à Teahupoo, no Tahiti com muita história na bagagem. A entrevista foi feita às 8 e meia da manhã, foi ao ar por volta do meio-dia, virou destaque no site o dia todo, até porque saímos na frente da entrevista ao vivo que Pedrinho (como é conhecido no surf) faria para o programa Zona de Impacto, da Sportv. Resultado: foi chuva de acessos e comentários no Terra, além de um abre aspas na Revista Fluir daquele mês. Pena que a Fluir não deu crédito à repórter, e sim ao site, mas ta valendo (Risos). Essa série rendeu também o fato de ter criado contatos e amigos como editores, atletas e todos os envolvidos com o esporte, seja nos campeonatos ou no meu dia-a-dia na minha cidade, com certeza abriu portas.

VDR - Como é para você trabalhar em Rádio?

MB - Rádio pra mim é lúdico, me divirto editando, produzindo e apresentando. Sem contar que é um ambiente mais à vontade, se comparado a uma bancada de TV, que pra falar a verdade me deixa desconfortável ainda. Eu prefiro a proximidade com a mesa de áudio, com os programas de edição, acho um ambiente mais despojado. Claro que trabalhar com imagens faz a gente expandir na informação, mas o rádio é um mundo à parte pra mim. Eu posso dar o tom que eu achar que devo, comparado aos meios de comunicação high tech, eu gosto da idéia “artesanal”, dinâmica e imortal do rádio. Poder estar em cima de um lance sem precisar de parafernalhas, a não ser um celular com link ao vivo e um gravador de voz, é algo prático e insuperável. Isso fica impraticável na TV, no impresso, no online. Mas acredito que a correria seja a mesma em todos os campos do Jornalismo.

VDR - Monique, em 2007 você estava se formando na faculdade, conforme o seu release. O que fez você escolher o tema hip-hop X mídia?

MB - O que me fez optar pelo tema: afinidade e relevância social. Foram os mesmos princípios para criar meu programa de rádio, assim como outros projetos. Outro fator foi proximidade com o reduto da Lapa, já que foi a época em que eu saí de Saquarema, palco do surf, pra morar em Niterói, onde fiquei por três anos até 2007. E trabalhando com Rádio, a música foi mais elementar pra mim. No caso do jornalismo, o hip-hop exerce bem essa relevância social. Outro ponto-chave foi o desafio, já que rap carioca era tema inédito em matéria de conclusão de graduação no estado do Rio de Janeiro. Soube até então de uma professora com uma tese de mestrado com o mesmo tema voltado para as galeras cariocas em fase de pesquisa também... A escassez de abordagem sobre o tema gerava uma bibliografia irrisória, o que ao mesmo tempo me deixava livre pra seguir qualquer linha teórica, dependendo exclusivamente de uma orientação de praxe. Fechei com o título “Rap X Mídia: A Voz da Periferia Carioca no jornal O Globo”. Soa irônico e é pra soar realmente, já que pude constatar silêncio da mídia em questão, no que diz respeito à voz de periferia, de rua... Eu quis avaliar pelo jornal O Globo, impresso de um dos maiores veículos de comunicação do mundo, pra justamente polarizar a questão e não polemizar mais do que já se vê. E falei também da resistência midiática perante os adeptos do hip-hop. Eu vi antes, durante e depois desse trabalho várias tensões entre esses dois pólos de cultura e procurei detectá-las através de análise do discurso dos raps, que usei em citações. Também fiz a análise com base no livro “A Cultura da Mídia” do americano Douglas Kellner. Abordar o tema da lógica dos Estudos Culturais foi outro desafio, já que não são todos os formandos que se arriscam nessa linha teórica, mais contemporânea. Acho que fiz as escolhas arriscadas, mas o 9,5 de nota final comprovou que eu estava no caminho certo, independente de comissões.

VDR - Você acha que existem muitos grupos hoje que se voltaram para a mídia e esqueceram a verdadeira essência do movimento?

MB – Não acredito que um artista de verdade perca essência a partir do momento que ganha dinheiro com o que gosta, com o que sabe fazer, independente de movimento. O artista, aquele que produz arte, não pode fazer arte sem a essência. Não acho que esqueceram a essência, só alternaram o foco. Por que quem um dia é rei se degenera depois de coroado? Não vejo sucesso de um significar o abandono dos demais. É tudo uma questão de saber administrar os interesses. A questão social dentro do hip-hop não vai morrer, nem deixar de ganhar porque vai ter um e outro atrás de um Grammy. Cada um tem seu papel e sua verdade. E na real acho que nada existe sozinho, mesmo que não exista união de fato.

VDR - E quanto ao espaço na mídia, ainda é muito monopolizado?


MB - Não sei ao certo se está muito monopolizado. Com certeza existe monopolização porque existe indústria, existe a massificação, existe o consumo e existe o segmento que chamamos de grande mídia. Se a gente quiser mudar isso, a mídia abre espaços sim. Porém, na grande mídia eu avalio esse espaço em lacunas como um tipo de serviço social, ou uma linha “cool” de criação e estética, a exemplo do grafite e não como um espaço de fato, consagrado. Mas hoje a gente tem alternativas com o advento da Internet, a pirataria, os downloads, os Myspaces e Youtubes da vida. Essa interatividade cresce e com ela proliferam pólos e a democratização dos espaços das mídias, mesmo as de menor difusão. (Risos)

VDR- No inicio da sua carreira você começou acompanhando o mundo do surf. Quais diferenças você vê entre as duas tribos, surf e hip-hop? E quais as semelhanças?

MB – Surf - é natureza, mar, a utopia dos verões, campeonatos, surftrips. Trilhas sonoras passeiam pelo reggae, trip hop, hard core, trance. São geralmente mais preocupados com meio-ambiente. O segundo esporte mais praticado do Brasil só fica atrás do futebol..Mesmo tido por muitos como um esporte mais centralizado, das elites.
Hip Hop Nacional - é mais asfalto, concreto, a crítica social em praça pública, viagens com a crew, rap, consciência, negritude. São geralmente mais preocupados com política privada e pública. Ainda pouco difundido no Brasil, a não ser através de projetos sociais e é considerado manifestação das periferias. As semelhanças? Criam Ong’s e oficinas, mediações intergaleras. É uma gente nova, cheia de sonhos, de energia. Ambos agregam valores e pessoas que buscam deixar uma marca no mundo, independente do life style. Muitos surfistas curtem rap, grafite. De repente por essa identificação com um estado perene de rebeldia, no sentido de liberdade. Ambos acabam se dividindo entre a “alma” e a “indústria”. E tanto no centro como na periferia existem adeptos de ambas as “tribos”.

VDR- A cultura hip-hop no Brasil ainda é muito marginalizada , dizem que principalmente o som ,o rap, é música de bandido. Qual seu aprendizado a partir do momento que você tomou contato com a cultura?

MB- Antes de aprender com o discurso do rap eu cresci aprendendo com o samba, com a malandragem e o jogo de cintura. Sambistas já esbarravam nessas questões sociais. Tinham e têm ironia e inteligência, sem falar na cadência e lirismo nas canções. O samba foi a minha primeira referência de cultura marginalizada, porque antes do rap, o samba, o chorinho eram poesia marginal. Então pra mim isso não veio com o rap, veio com o samba, com o êxodo rural que trouxe com ele o nordestino, o repente, trouxe à tona realidades muito equalizadas entre si. Eu não vejo a música como som pra se vestir, mas pra se ouvir. Não uso rótulos e marcas pra falar de música. As pessoas têm necessidade de enquadrar e excluir tudo e todos, mas não vamos nos iludir, isso também não é de hoje.

VDR - E qual papel que as mulheres desenvolvem dentro da cultura?

MB – Dentro e fora da cultura, de forma geral, a mulher exerce a sua marca, sua feminilidade, sua postura, sua esperança, sua sensibilidade, visão de mundo, sua força, sua alegria, sensualidade, a essência feminina. A cultura, o mundo precisa e recebe cada vez mais as mulheres. Não vejo separação de gênero dentro da cultura, a não ser nas letras machistas de alguns raps, mas isso pra mim só tem graça pra quem faz, piada interna, sabe. Eu não me ofendo, porque simplesmente não levo pro pessoal, não me identifico e ao mesmo tempo não acho que isso vá detonar a imagem da mulher no meio, de certa forma isso só acontece se a gente for reforçar mais um rótulo, dessa vez sobre a mulher. O rap fala de sociedade e certos discursos sobre a mulher mostram que a sociedade é machista. Não acho que sejamos nós mulheres as maiores vítimas, de repente quem fala de maneira machista é vítima do sistema também. (Risos)

VDR- Poucos grupos realmente vivem bem de suas músicas. Você acha que a sociedade brasileira ainda é muito hipócrita com relação ao que esses jovens que produzem coisas boas?

MB – Não acho que seja hipocrisia. Acho que além da difusão do gênero hip-hop nacional, de uma identidade artística, é tudo uma questão de talento, de gosto pessoal de quem ouve e sorte de quem faz. Acho isso muito pessoal, imensurável. Grupos de rap produzem coisas boas referentes ao meio do rap. Produzem coisas ruins referentes à indústria. Eu vejo como uma incógnita. Em que medida se vende mais ao fazer mutações, variações entre pista, gangsta e samba? Conheço gente que acha rap chato. Mas se eu cito um verso de algum MC desconhecido pela maioria eles admiram a rima. Eu não sei onde está a raiz da questão. Na postura agressiva do discurso de dominação, de anarquia? De um estilo de vida que talvez não faça a cabeça da maioria “alienada”? Ao mesmo tempo o rap canta pra maioria excluída, maioria que ironicamente é bombardeada pela cultura da mídia, da indústria. É tragicômico pra mim, esse lance de consumo / imediatismo x senso crítico / apelo social. Fica um vácuo e aborrece quem eu vejo que dá a vida pelo rap.

VDR- Mudando um pouco de assunto, ou muito, nos últimos tempos tivemos um brutal ataque do Estado de Israel ao povo palestino, na faixa de gaza. Muitas pessoas saíram para protestar nas ruas do Brasil, e muitos jovens inclusive. Realmente o ataque foi justificado? Você acompanhou?

MB – Se foi justificado eu não sei. Eu sei que não é justificável. São heranças de ódio por gerações. Genocídio, um crime explícito disfarçado de guerra santa. Um documentário chamado “Promessas de Um Novo Mundo” mostra as reações das crianças e jovens israelenses e palestinos no meio desse confronto. Porque falar de guerra e achar que é uma questão política ou religiosa não é relevante pra uma criança que cresce com neuroses, opositores, que fica amiga de uma outra e depois não pode visitar porque é “moralmente” e culturalmente sua inimiga. E o futuro não é tão incerto. Guerra só justifica mais guerra, inerente ao motivo que a causou. Pra mim não é uma questão de acordo, todo poder tem um poder paralelo. Nem precisamos ir muito longe, até porque a realidade brasileira, em matéria de crime, tem ares e números de uma guerra mundial.

VDR - Acha que o rap também deve informar com relação a esse tipo de fato?

MB – Na geração dos meus pais não se tinha o rap como arma. Mas tinha a marcha, o movimento estudantil. Era o peso do chumbo contra o peso dos livros. De certa forma o manifesto sempre tem, mas eu acho que o que o Brasil podia resgatar esse protesto em massa. Acho que a maioria dos jovens ta acomodado, aglomerado em “protesto” de rave e micareta, o protesto do lazer. Nada contra, mas preocupante. Uma indústria que cresce e a gente só vê consumismo e imediatismo de coisas e pessoas. São problemas sociais e o rap tem essa marca de colocar em pauta essas questões... E a gente vê o menor na rua partindo pra guerrilha armada e somando no tráfico, onde a vida dele nada mais é do que a soma de chances negadas. O hip-hop me parece uma chance, as Ong’s, as oficinas de artes me parecem chances.. O rap deve ser livre. Acho que essa é a essência. As pessoas devem atentar para o que quiserem, seja pra fazer crítica, diversão, denúncia, ficar rico. Só de estar produzindo algo que some, acho válido. Acho que o rap é uma estrutura pra qualquer forma de informação e não deve ser dito impuro se tem alguém usando de forma polêmica. A arte é transparente e leva quem também é até o fim.

VDR – Para finalizar nossa entrevista, a sua opinião sobre a campanha de como eliminar o machismo que se encontra enraizado na sociedade em geral, deixe uma mensagem para mulheres como você que visualizam nas barreiras chances de provar de que não passam de degraus para o alcance dos objetivos.

MB - Primeiramente, quero agradecer ao espaço, Voz da Rua, Rafaela e Pedro Magalhães pelo convite.
E eu creio que pra eliminar o machismo, não precisamos ser machistas nem feministas e sim humanistas. A gente tem que acreditar mais no ser humano, embora seja difícil, pelo menos acreditemos em nós mesmos. Para as mulheres só digo: permanência na essência. Se não souber busque o que te faz plena e permaneça evoluindo. É isso.


:: Contato ::
ORKUT - Monique Barcellos

Um comentário:

  1. ótima entrevista!! Assim como você eu também vejo a música como arte e não como estilo de vida. Muitos precisam de rótulos para serem aceitos em determinados grupos.

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