quinta-feira, dezembro 30, 2010

1ª Invasão Cultural no Complexo do Alemão


:: Resenha ::

Invasão Cultural: Uma via de várias mãos

  • Por Monique Barcellos
Na última quinta-feira, dia 16 de dezembro, o Coletivo ComandoSelva 22, em parceria com o Instituto Raízes em Movimento, realizou uma manifestação pacífica no Complexo do Alemão - RJ, a 1ª Invasão Cultural. Com roda de rima, exposição de fotos, graffiti, estêncil, música, com atividades simultâneas de grupos voluntários: Corpoético, Coletivo Kinóia, Coletivo Tecnocolor (Tempografia), Epifania, Integrantes da Orquestra Voadora, Teatro de Operações, Roda de Rima (CCRP), Exposição de Fotos (Tehuly Rezende), Telas em Estêncil (Coletivo TH420 e NATA), e Dança (Maracatu) e Poesia (Monique Barcelos). Teve o apoio de Benex, Amálgama e Familia Conjuntivite.

Agora imagine todos esses grupos se reunindo em um cenário tão comentado este ano na mídia como um palco de terror, perigo, e turbulências. Será um milagre, uma utopia, uma loucura? Não, meus amigos. Foi uma manifestação de artistas que acreditam que a favela quer cultura, quer paz, quer cidadania, respeito. Que o Rio de Janeiro e, especialmente a favela merece dias de sol, de crianças sorrindo, adultos festejando, em confraternização.

Confiram o video extra-oficial:





Eu faço uma Ode à música de Gilberto Gil "Nos Barracos da Cidade". Essa foi a trilha sonora que rondou minha cabeça nesse 16 de dezembro. Foi um dia em que todos pensamos juntos em combater a estupidez e hipocrisia que gira em torno da imagem social e midiática sobre certos problemas nas favelas (que na verdade, como muitos de vocês já sabem, são reflexos e consequências de outros problemas fora delas). Combater um pouco a babilônia que alimenta os filmes e modinha do BOPE, o terror das manchetes de jornais, o sensacionalismo que aumenta audiência nos noticiários da TV e tiram nosso apetite, mesmo no MUTE.

Parti do princípio básico: "Não deixe a TV te tontear. Terror vende." E sempre foi assim. Mas o que podemos fazer para combater e aliviar essa tensão?

Sempre acreditei em manifestações em comoções, em colocar literalmente o bloco na rua. Em que medida isso é loucura e o que vemos na TV é real? Não à toa, quando recebi o convite do Coletivo Comando Selva 22, aceitei sem pestanejar e parti da minha praia, do meu sossego de Saquarema, para o Alemão. E já tinha certeza que seria um dia memorável. E como eu me surpreendi mais ainda com o que vi e vivi!


DIÁRIO DE BORDO

13h - O pessoal se reuniu na Central do Brasil (foto abaixo), e a concentração reuniu todos esses artistas já citados. Dali mesmo já começou um aquecimento em forma de Música e Improviso.
Destaque para a cena surreal de mais de 50 pessoas esperando um ônibus e o Dropê (Comando Selva 22) saindo na frente, todo mundo na calçada e o ônibus passando batido, alguns gritando: "Levaram o Dropê!!!". Todo mundo correndo atrás do ônibus. E eu como sempre pergunto: "Com emoção ou sem emoção?". Era só o começo de MUITAS EMOÇÕES.

14h - Depois de muita "bagunça" no busão, como um velho bonde de excursão de colégio, cantando músicas entre batuques e 1 ou 2 passageiros comuns, chegamos no Alemão, com um sol escaldante. Contrastes entre o exército de armas em punho e a tropa da alegria com instrumentos e beat box.




15h - Fomos rumo ao topo em cortejo e a cada subida tortuosa, o coro foi aumentando. Foi surgindo um hino, surgiram moradores atraídos pelas nossas boas vindas. O carro do Bope subindo e ainda assim contagiamos e fomos contagiados por este tom pacífico e de festejo.

17h - Uma caminhada cansativa e pausas entre gargalhadas com as performances dos palhaços e a farra das crianças. Quantas crianças!!! Atraídas pelo lúdico. Me emocionei na subida. Lá no alto eu sabia que ia acabar a bateria da minha câmera. E cada vez que subimos a paisagem ia mudando. As crianças já formavam trenzinhos (foto abaixo), já brincavam de roda, e o cenário mais parecia de uma roça, com cavalos e área verde.

O que chamou atenção no descampado. Entre escombros, um coturno jogado, com marcas da chuva e de furos. Era uma imagem gélida. Mas nada que ofuscasse a cena em volta: um aglomerado de crianças, mamães e seus bebês, maravilhados, sorridentes, dançantes e um calor de rachar. Muito AMOR, muita Felicidade.

Chegamos no topo do morro (foto abaixo), cientes de que não estávamos levando lições, eram caminhos de mão dupla, de várias mãos dadas. A comunidade recebeu muito bem, e também fomos bem recebidos, integralmente.

Na descida, cada um tinha um "afilhado", incrível. Numa dessas conheci uma menininha de riso fácil e olhar tímido, de pé no chão. Tirei pra dançar e perguntei o nome dela: "MISSIELLY".
O diálogo seguiu assim:

-Michele?? - perguntei de novo.
-Missielly - ela disse.
-Marcele???? - insisti.
-NÃO!! MISSIELLY!! - Ela já mudou a carinha.

Na hora me veio a síndrome do Michael Jackson, que foi incorporado popularmente no Brasil como "MAICON".
Pensei: Cara!! Lógico!!! MISSY ELLIOT!!!

- AAaah!!! Missielly!!!! - surpresa, imitei o passinho da cantora americana, no clipe Ching-a-Ling.

Ela achou graça e depois de muita risada, já descendo a "Missy" não largou minha mão e eu quis saber onde estaria a mãe dela. E ela nem aí, veio cortando o bloco atrás de mim até lá embaixo. Confesso que fiquei preocupada, mas ela estava tão feliz, correndo e pulando, que desceu como as outras crianças, em estado de graça. Isso sem falar no tombo que eu levei e nem assim ela largou minha mão.

18h - Nos concentramos finalmente em um local onde estavam os grafiteiros e assim foi, entre rimas, tintas, batucadas e sambas até de tardinha. Fechei o dia cansada! "Morta mas feliz." Pensei. Poderia pedir mais alguma coisa? Quero mais o que? Foi aí que o pessoal do Comando Selva comunicou aos guerreiros que eu ia ler umas poesias. O mais louco disso tudo é que eu nunca havia lido poemas meus. Sempre escrevi, publiquei até aqui no Blog, mas nunca li em público. Não estava nervosa, até um pouco tímida, de repente, mas estava emocionada sim, mesmo! Que dia! Resolvi tirar da cartola 2 poesias do Mário Quintana e 2 de minha autoria. Todas falando de AMOR. Achei propício e digno desse dia.

Foto: Thiago Diniz


E a Poesia escrita veio brindar o fim de tarde, animou alguns outros parceiros que também recitaram, como Thiago Diniz, Odaraya, Bola, Bidi e Papo Reto . Invadimos e fomos invadidos com "Paz, Amor, Alegria e Luz" (Um dos gritos de guerra do dia)!


SALDO POSITIVO

Primeira Invasão Cultural - Primeira vez que visitei o Alemão, primeira vez que apresentei poemas em público, primeira vez que pude perceber a frase que ecoou em 2010 inteiro na minha cabeça se tornava uma realidade, (sincronicidade!) pelo menos naquele momento:

"PREFIRO ACREDITAR QUE O QUE EU FAÇO
SOZINHA PELO COLETIVO É IMPORTANTE."
(Monique Barcellos)

20h - Despedida. Perceber que estamos no mesmo barco, mesmo com cada tripulante navegando por conta própria, esse foi o maior barato.

A trupe da Invasão Cultural e a recepção mais do que positiva do Alemão deixou várias lições: O caminho é uma via de várias mãos. E que é possível transformar o que queremos ver no mundo se percebermos o quanto é importante essa evolução. E que podemos dar as mãos e fazer algo pelo que acreditamos. Pelas crianças, pelas pessoas, pelo mundo.

Pode vir 2011, com muito mais Emoção e Invasão!!!

Confiram as fotos desse Dia Histórico!!!
Parabéns a todos que participaram e obrigada Comando Selva, pelo convite.
Muito orgulho dessa iniciativa. Foi lindo!

Muita gente registrou. Alguns links abaixo:





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